segunda-feira, 23 de abril de 2007

Ultraje

Certa feita, mamãe me surpreendeu. Pediu-me encarecidamente que fosse à padaria e comprasse pães, leite, ovos, e alguns sonhos. Mamãe alegou a quebra do seu carro e a, concomitante, ausência da empregada como motivos para tal determinação. Recebi com certo espanto a incumbência que fora-me dada, já que, em 19 anos de vida, nunca precisei me deslocar à padaria, ou a qualquer lugar que fosse, para realizar fins domésticos. Todavia, complacentemente, resolvi acatar o pedido de mamãe, levando em consideração, principalmente, a etérea benevolência materna em todos os meus tenros anos de vida.
Quando já estava praticamente de saída, o telefone tocou, e eu, aproveitando a proximidade do aparelho, resolvi atender. Quase não acreditei quando ouvi a mulher que consumia os meus pensamentos convidar-me para passar a noite na sua casa. Ela tinha 16 anos e possuía uma beleza estonteante. Era bom demais para ser verdade. Seus pais haviam viajado para comemorar 20 anos de matrimônio, e ela, pelo menos por uma noite, estaria sozinha, visto que a sua tia mais próxima só poderia chegar um ou dois dias depois do embarque de seus pais, devido ao fato de morar em outra cidade e ter alguns aprestos a resolver, ainda, por lá.
Não consegui conter a ereção quando aquela nínfica voz ratificou o tentador convite. Mal podia esperar.
Passava das cinco da tarde quando eu saí de casa. Saí regozijado de casa. Desbravei com leveza o desconhecido caminho até a padaria. Nem notei o tempo passar. Em vinte minutos eu já estava no local desejado. Comprei os pães, o leite, os ovos e os sonhos, como foi combinado. Aproveitei o ensejo para comprar um pacote de camisinhas, vislumbrando o quão dadivosa seria aquela noite.
O sol já se punha quando eu, enfim, saí da padaria. Estava ainda mais exultante. Era só chegar em casa, tomar um ducha, comer algo, para então... Não haviam mais estorvos. Só faltavam mais alguns passos para que regressasse à minha casa. Eu estava quase lá. Quase lá. Quase.
Faltava apenas atravessar uma quadra quando, abruptamente, fui puxado.

À primeira vista pensei que fosse uma tentativa de assalto. O elemento me imobilizou com uma espécie de “mata-leão”, encurralou-me contra uma fétida parede, tudo isso sem abrir mão de um pequeno, porém afiado, canivete. Diante do pânico, tentei entregar-lhe imediatamente o fardo que eu tinha em mãos, entretanto, o elemento, inexplicavelmente, vilipendiou a minha oferta. O fardo foi ao chão. A essa altura nós dois já estávamos distantes do raio de visão dos transeuntes. Eu estava desesperado, porém acanhado. Tudo parecia estar sentenciado. Levando em conta que aquele homem desdenhou tudo o que eu tinha a dar, eu já cria que o próximo passo seria a minha morte. As lágrimas aspergiam de mim.
Até aquele momento, eu ainda não tinha ouvido, de fato, a sua voz. Ele apenas balbuciava coisas desconexas. De repente, em um movimento brusco e ágil, ele me virou em direção a si. Só a partir daí eu consegui, mesmo à meia luz, observar o elemento: Aparentava ter entre 40 e 45 anos; cabelos crespos, curtos, e levemente calvo; um imperioso cavanhaque; pele morena; e aparentemente forte.
O seu olhar mesclava avidez e perversidade, e o meu mesclava medo e medo. Após me encarar fundo com os olhos ele exigiu que eu tirasse a minha bermuda. Imaginei logo que a idéia daquele psicopata seria me castrar, visto que ele continuara com o canivete em mãos. Ele se aproximou ainda mais. Ele ajoelhou-se. Ele sucumbiu a minha cueca. Ele apalpou o meu sexo. Ele abocanhou o meu pênis.
Abocanhou com muita voracidade (com o canivete ainda em mãos). Uma profusão de sentimentos me consumia: raiva, raiva, raiva, raiva,..., prazer. Não sabia mais o que fazer. O seu canivete muito me intimidava. Poderia morrer de uma vez, se tentasse escapar. Por isso, achei melhor esperar por um ato de comiseração do meu algoz.
Contudo, ao fim da relação oral, não sei se concitado por uma involuntária e inevitável ereção de minha parte, o meu algoz, em tom mais amêno, pediu que eu virasse de costas a ele. Cheguei até a suspeitar que o mesmo pudesse apunhalar-me por trás, findando, definitivamente, o seu serviço.
O gélido característico da lâmina do canivete fora travestido no gélido-cálido da língua do meu torturador. A sua língua passeou sorrateiramente por perto do meu ânus. Os seus dedos vasculhavam o inexplorado. Quando finalmente a sua língua chegou ao cume, eu fui ao chão. O tão temido canivete saiu de cena. Eu estava entregue.
Após dedilhar e lubrificar com saliva o meu ânus, ele me posicionou de quatro e, impiedosamente, introduziu o seu avantajado membro, iniciando uma série de movimentos incisivos, cruéis, nefastos e enlouquecedores. Os gemidos foram inevitáveis. No momento em que ele retirou o pênis de mim, senti o misto de ardor infernal e alívio divino. Não tinha mais forças.
Senti depois, no entanto, a sua incansável mão puxar-me pelos cabelos. O que mais esse insaciável quer de mim? , pensei comigo. O seu pênis continuara inexorável - Rijo, venoso e, agora, aureolado de fezes. Quando, enfim, me dei conta, já estava com o seu pênis (e as minhas fezes) na boca.
Depois de, mais ou menos, quatro intermináveis minutos, ele finalmente ejaculou. Ele gozou em mim. Ele gozou na minha boca. Ele gozou de mim.

Em seguida, ele levantou-se, vestiu-se, espancou-me, cuspiu-me, pegou o, já esquecido, fardo com as compras, fez uso dos pães, do leite e dos ovos, e arremessou os sonhos em uma, insinuante e despretensiosa, lata de lixo.


Mitchell Almeida

quinta-feira, 19 de abril de 2007

"O Notívago e o Violão"

Bateu o sono.Vamos dormir! Espere aí! Cadê João?
Já é madrugada e sol
Mistura-se álcool e pó
Heteras garridas sem dó

... e nenhum sinal
de onde estarão
Notívago louco e o seu violão.

Bateu o sono.Vamos dormir! O travesseiro é a razão.
Não há nada belo pra ver
Pessoas irão fenecer
“Brasis” de ladeiras descer

... e nenhum sinal
de onde estarão
Notívago sádico e o seu violão.

Não tenho sonho, o sono é cru, não há loucura, há só cifrão.
Sucesso eu vou encontrar
Se, trova e quimera, extirpar
Um Trump irei me tornar!
Um Trump irei me tornar!

... e nenhum boçal será maioral
nem tão abissal que um mero sinal
de onde estarão
Notívago gênio e o seu violão.

Pela noite estão...

Mitchell Almeida


(para João Gilberto Prado Pereira de Oliveira)


O encontro do século


Oriunda de www.sponholz.arq.br

terça-feira, 10 de abril de 2007

- Sabia que eu te amo?
- Ah... que pena, porque eu te odeio.
- Pensando bem... Eu é que te odeio!
- É realmente uma pena, porque eu te amo como nunca amei ninguém.

Após, intensa e duradoura, neblina ensolarada, o casal não resiste.
...e falece num bosque apinhado de rosas, lírios e camaleões.


Mitchell Almeida

sexta-feira, 6 de abril de 2007

"Bossa de Bossas"

Dia de luz, festa do sol
Olha que coisa mais linda!
Eu, você, nós dois
De conversa em conversa.

Acontece que eu sou baiano
Ela é carioca, ela é carioca
Porém, seu coraçao quando palpita
Eu me esqueço até do futebol.

É pau, é pedra...
O morro não tem vez
Eu vim da bahia cantar
Eu sei que vou te amar.

Vou te contar...
Só tinha de ser com você
Triste é viver na solidão
Um cantinho, um violão...

Na beira da lagoa
Revelou-se a sua enorme ingratidão...
... o amor, o sorriso e a flor
Cai como uma lágrima de amor

Outra vez
Esse seu olhar
Da cor do pecado
Pra machucar meu coração

A insensatez que você fez
Eu sei... que é preciso perdoar
Mas se ela voltar, se ela voltar...
Só Bim Bom, Bim Bom, Bim Bim...


Mitchell Almeida & Marcel Marques

domingo, 1 de abril de 2007

"Dúvida"

Lombo, hieróglifo
Afã, lepidóptero
Afinco, desleixo e tensão.
Garbo, elegância
Talvez jactância
Será verdadeira, ou não?
Brisa e vento
É humor, desalento
É a bruma que paira no ar

E me faz duvidar do que seja você
E quimeras fico a imaginar
Já não sei mais se amo ou odeio sofrer
Se odeio ou se amo você

Uva, laranja
Mulher ou criança
Revista, TV ou jornal
Whisky ou cerveja
Feiúra, beleza
Açúcar, pimenta e sal
Azul é vermelho
Sonho, pesadelo
A neblina não quer me deixar

E me faz engendrar o que eu deva fazer
Pra findar essa situação
Quanto mais eu espero, loucuras elevam
E já levam o meu coração