quarta-feira, 30 de maio de 2007

"O menino da praia"

Por dias, tentei entender a sua cabala...

Não sabe o quanto foi desgastante pra mim
Não imagina o quanto foi edificante pra mim
Os seus olhos verdes que me dizem tudo
São os olhos verdes que não me dizem nada
É a mais perfeita harmonia com a inconstância do mar.

Nas suas costas há um pégasus tatuado.
Um pégasus com auréola angelical
Um retrato do seu desleixo iconoclasta.
Um retrato dos seus desvarios, do seu credo...
Um retrato seu

Seus cachos semi-ruivos seguem o vento dançante
Rumo à mais correta das incertezas
Ou, talvez, à mais cálida das friezas
Balizando o não limite dos sonhos
Eles seguem o vento...

E você segue de peito aberto:
Lépido
Audaz
Alternativamente belo
Com um alegre tom fugaz.

És o vento.
És aurora voraz.
Tudo agora é desalento.
Pois da vida você jaz.

Mitchell Almeida

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Sonho...realidade...afasia...sonho.

Tarde enfadonha
Pensamento insistente
Apenas paredes
Com o verde latente

Nada de perspectivas
Tudo permanece igual!
O meu pai insiste em assaltar bancos
A minha mãe prefere tomar coca-cola
O meu amor continua a ser uma quimera
E o meu pulmão segue em decomposição.

Tarde enfadonha
De sonhos perenes
De planos, de rugas
De peito dolente.

Inexplicável-mente...
O marasmo se fez estupefação
O meu sonho virara realidade
A conveniente paz transformou-se em tensão
E o covarde já sente saudades

...da tarde enfadonha
...da força do pensamento
...da realização de um sonho
Não realizado inteiramente.



... e você continuará sem me entender.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Operação Navalha


"Gautamas..." (de Sidarta a Zuleido)

As coisas estão estranhas no Brasil.
Muita correria, muita confusão...
Problemas em demasia.
Assim não se pode viver em paz!

Problemas - que não são uma praxe no meu país - passam, de uma hora pra outra, a aspergir na mídia:
Muitas informações, muitos imbróglios, factóides...
E as minhas rugas continuam a me incomodar.

Preciso tomar, imediatamente, uma atitude.
Uma atitude, ao mesmo tempo, drástica e parcimoniosa
Que me faça alcançar a plenitude, extirpar o caos...
E que, sobretudo, me desligue do mundo.

Engendrei uma dura peleja na busca pelo bálsamo
Entretanto, não imaginei que pudesse chegar ao nirvana de maneira tão célere.
Após fortuita e despretensiosa leitura, cheguei a uma edificante constatação:
O budismo é o mais correto dos caminhos!
Foi, realmente, surreal.

A filosofia de Sidarta Gautama me inebriou completamente.
Gautama seria a panacéia universal!
Seria, ademais, a solução para os meus anseios.
As minhas rugas não existem mais.

Agora, tudo é dádiva!
Tudo é ouro!
Até com Charles Bronson me confundem.
Tenho a proteção de Gautama e sou inatingível.

O poder de Gautama é magnânimo!

Diante de Gautama...
Os vampiros sucumbem.
Diante de Gautama...
As sanguessugas agonizam.
Diante de Gautama...
Nem Gautama se enxerga.
Diante de Gautama...
Todas as navalhas ficam cegas.

...e que a força de Gautama continue a me alumiar!

Mitchell Almeida


“A decadência é inerente a todas as coisas compostas. Vivei fazendo de vós mesmos a vossa ilha, convertendo-vos no vosso refúgio. Trabalhai com diligência para alcançar a vossa Iluminação”.
Últimas palavras do Buda, Sidarta Gautama.

sábado, 19 de maio de 2007

"A menina triste" (Samba-rock)

Violeta
Céu nublado
Emaranhado
... de tristeza e de dor

Sentimento
Consternado
Rói as unhas
...e despreza o amor

A menina triste passou aqui
Para anunciar más notícias da sua vida
Decepções, agruras, desventuras...

Entretanto, o tempo não vi sorrir
Nem sequer as mais vivas flores vão resistir ao seu jardim
Enfim, sem fim, seu fim, meu fim...

A menina triste não acredita no amor
A menina triste que sofre tanto de amor
A menina triste precisa apenas do amor
Pra fazer desse amor sua dor...

-Que horror, que horror, que horror...
-Que horror, que horror, é o amor!
-É o amor, é o amor, é o amor...
-É o amor, é o amor, que horror!


Mitchell Almeida

quarta-feira, 16 de maio de 2007

"O analfabeto político"

Ah... Me sinto tão feliz!
Me sinto regozijado
Não podia estar melhor
Tudo vai de vento em popa.

As minhas dívidas foram pagas parcialmente
O meu salário aumentou 3%
A protagonista beijou o mocinho na novela
E eu continuo a beber freqüentemente.
Realmente, finalmente...
Eu comi a minha namorada
Eu espanquei um antigo e irritante rival
Eu fumei maconha
Eu fui ao Porto da Barra.
Eu senti o prazer da academia
Eu descobri que sou “Chicleteiro”
Eu investi em roupas de marca
E no bingo deixei meu dinheiro.

Ah... Como me sinto bem
Sou uma pessoa informada
Informada da conjuntura atual, dos males...
E de todos os problemas que atormentam o meu país.

O Brasil está em pânico!
Não consigo mais dormir em paz!
Parece que a Siri brigou com o Alemão
E agora?
O que será de nós?
Se Deus quiser, tudo correrá bem, e eles permanecerão juntos.

Ah... Esses meus problemas...
Como me consomem
Como?

Entretanto, quando parecia que o mundo ia acabar...
Eis que uma luz surge para salvar o nosso povo:
O Santo Papa agora está entre nós!
Me disseram também que a nova reencarnação do Messias seria do Brasil
E que essa pessoa possui uma imperiosa coroa, uma majestosa barba, e que conta com o auxílio de nove dedos nas mãos.
Ainda não consegui descobrir quem é o tal Deus Brasileiro, mas já fico tranqüilizado em saber que, em breve, serei abençoado por ele.
É muito bom para ser verdade!

Ah... Como eu sou feliz!
Ah... Como o sol aqui brilha!
Ah... Como é bonita a torcida do Bahia!
Ah... Meu Deus... Ah!

Eu que adoro TV
Eu que não gosto de ler
Assim quero sempre viver
Eu que odeio política.


Mitchell Almeida

segunda-feira, 14 de maio de 2007

A despedida do Papa


sábado, 12 de maio de 2007

Será que você entende?

Agora estou sem paciência pra você
Muita gente em casa
Festinha de idosos
A senhora entende?

Marquemos uma data
É isso, hehe!
Que a chuva traga o alívio imediato
A versão luau será melhor

O dia, apesar de tudo, foi bom
Eu digo que tem como
Só que é muito difícil
É trabalho para profissionais

A gente, que é leigo, fica olhando assim...
- Que miséria é essa?
Depois eu vou te mostrar como mudar isso
Melhor até que churasco mal assado, por sinal.

Muita gente boa pra pouco espaço
Será que essa foi a razão da separação?
Pode ter sido um dos fatores
É...certamente, foi

Apesar de tudo, estou muito empolgado
A lâmpada do meu banheiro queimou!
Empolgadíssimo com o desenlace desse curso
- Um pouco mais de romantismo, por favor!

Está vendo aí!?
É por essas e outras coisas que não iria dar certo a gente escrever a nossa estória hoje.


Mitchell Almeida - com o auxílio implícito de Marcel, Jorge, e da conjuntura atual.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

"Sonho Alvissareiro"

Acordar é tão difícil
Exaurido, feminino, não consigo levantar
O céu ainda está dormindo
Diferente do menino que começa a pelejar
De repente um estampido mudo manda o seu aviso:
Já é hora de acordar!
Por que a vida é tão bonita e, mesmo com a má rotina, ainda há tempo de mudar.

De mudar os sentimentos
Nem um pouco sonolentos
Que me fazem esquecer

Da preguiça malograda
Que me faz ficar em casa
Que me faz não ter você

E é por isso que agora
Mudo o disco da vitrola
Vivo enfim a nova bossa
Para, então, realizar

O meu sonho verdadeiro
Que já foi um pesadelo
É agora alvissareiro
O meu desejo de beijar

De beijar a sua boca
Inefável reticência
Eu mal posso esperar...

Vários sinos vão tocar!
Vários sinos vão tocar!
Levantar, pelejar, acordar...
Mudar.


Mitchell Almeida

segunda-feira, 7 de maio de 2007

O Ponto (2003)

Ao seu ver, o que é um Ponto?

O Ponto é algo paradoxal
O Ponto é um quão insignificante
O Ponto é imprescindível, indelével.
O Ponto é, ao mesmo tempo:

O cativante início
E o melancólico final.

O Ponto é a base do compasso
Girando esse compasso, formamos um globo
Nesse globo ocorrem pontos negativos e positivos...

Fome, miséria e guerra
São existentes nessa esfera
Assaz paz, amor e fraternidade
São os objetivos da humanidade

Mas...
...sem nenhum pretexto
É com um ponto que termino esse texto.

Mitchell Almeida

sábado, 5 de maio de 2007

"Dia...Noite"

Dia
Sol
Solidão
Desconfiança

Avidez
Procura
Sofreguidão
Cigarro

Inconformismo
Vazio
Nervoso
Álcool

Celeridade
Tontura
Vingança
Trauma

Pesadelo
Loucura
Certeza
Traição

Raiva
Ojeriza
Impulso
Revólver

Ódio
Amor
Parkinson
Ato

Tiro
Estampido
Sangue
Noite


Mitchell Almeida

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Quase Chuva


Fina e leve, quase escassa. Caindo lentamente neste ar vespertino, fazendo o dia parecer noite e tornando o clima gélido e monocromático, eu observo sua longevidade e as marcas deixadas sobre o solo.