sexta-feira, 18 de abril de 2008

"Breve relato de uma conversa com um errante navegante"

Ele me disse que caminhava, ouvindo reggae
Em Portobello Road.
Que imaginava a luz do sol, lua e estrela
Como era jóia...

Ele me disse que relembrava, com saudosismo
De tais trilhos urbanos.
De incerta gente, superbacana
Beleza Pura!

Outras palavras me foram ditas, fora da ordem
Soaram como queixa.
Uma mulher comeu o seu coração vagabundo.

Ele me disse que o Pelé disse, um dia disse:
"Love, love, love!"
Ele me disse que está sozinho
E que só tem um amor mais que discreto.

Falou de sampa
Do Haiti - que é aqui(!)
Da linha do Equador.
Falou de Irene
E de Nicinha
Falou, porém, bem mais de Claudionor.

Ele me disse que viu no céu um objeto
Não identificado.
Notou, na Terra, o leãozinho e uma tigresa
Da maior importância.

Ele me disse que caminhava, contra o vento
Sem lenço e documento.
Com irônia, com rebeldia
Com alegria, alegria!

Ele me disse que já não sabe se é neguinha, ou não.
Ele me disse, com empolgação, que o silêncio só perde pro João.
Ele me disse mais qualquer coisa...

Ele me deu um beijo na boca sem saber.

M.A.

domingo, 13 de abril de 2008

"Pela janela"

Defenestrei poetas
Defenestrei palavras
Defenestrei convites
De pessoas etilicamente legais.

Defenestrei demônios
Defenestrei a sorte
Defenestrei meu santo
Defenestrei a paz.

Defenestrei o tabaco
Defenestrei a bossa
Defenestrei a Rússia
Alemanha, Brasil e Escócia.

Defenestrei a pudica revolução vindoura
Defenestrei o molusco
Defenestrei sem dó
O dó que sentia de ti.

Defenestrei amores
Homens, mulheres, rumores...
Defenestrei - assumo
Os livros, como fez Godard.

Defenestrei a glória
Defenestrei - me acode!
Defenestrei a pena
Celebram o computador.

Defenestrei o defenestrável
Já não me restam mais roupas ou sapatos.
Defenestrei desnorteado
O que eu não imaginava defenestrar.

Defenestrei o verde
Defenestrei loucuras
Defenestrei um sonho
E, do alto, me auto-defenestrei.

M.A.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

"Por nada demais"

Tudo leva a crer que é
Mas não é o que parece ser.
Quando, na verdade, acha que eu minto
Só mente outro ser.

Que somente acredita no óbvio
No previsível, dizível
Imprevisível desacreditar...

Em doces palavras
De pluma espinhosa
Tão convincentemente...

Letais...
Mentiras, assaz...
Tu sofres à toa
Por nada demais.

Eu paguei a tapioca com o cartão
O dinheiro na cueca eu guardei
Alegaram que montei um dossiê
Mas ninguém sabe o que, de fato, aconteceu.

Eu não ando com muito dinheiro em mãos
Tenho medo de alguém me assaltar
E sou mesmo um bom moço, muito amoroso...
Mas ninguém vai acreditar em mim!

Será que vai acreditar em mim?
Quando é que vai?
Será que vai?
Enfim...

M.A.